Em 1820, as ideias liberais propagavam-se livremente pela Europa e encontraram terreno fértil em Portugal, onde a população ansiava por mudanças. O soberano português, D. João VI, que havia se refugiado no Brasil em 1807 devido às invasões napoleônicas, enfrentava dificuldades para implementar medidas que considerava essenciais aos interesses da monarquia. Naquela época, as informações demoravam a chegar ao Rio de Janeiro, já que o meio de comunicação mais eficiente era a navegação à vela.
D. João VI retorna a Portugal
Em 1820, a Revolução Liberal do Porto irrompeu em Portugal, exigindo a implementação de uma monarquia constitucional e o retorno da família real, que estava no Brasil desde 1808 devido às invasões napoleônicas.
Diante da pressão dos revolucionários, D. João VI retornou a Portugal em 26 de abril de 1821, deixando seu filho, D. Pedro I, como príncipe regente no Brasil.
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Tentativa de apoio à Monarquia
Em junho de 1821, a notícia do retorno de D. João VI a Portugal chegou à Capitania de Goiás, causando grande agitação nos círculos governamentais liderados pelo Capitão-General Manoel Inácio de Sampaio.
Buscando manter a população alinhada às aspirações do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, Sampaio emitiu uma proclamação conclamando a união em torno do rei. Ele destacou o compromisso de D. João VI, firmado em 26 de fevereiro daquele ano, de jurar obedecer à constituição que seria elaborada pelas cortes reunidas em Lisboa. A proclamação encerrava com vivas ao rei, ao príncipe, à Casa de Bragança e às referidas cortes.
Em 26 de abril de 1821, realizou-se nos paços do conselho uma cerimônia de juramento de fidelidade e obediência ao rei, bem como de adesão às cortes e à futura constituição.
O Capitão-General Manoel Inácio de Sampaio, ciente da insatisfação crescente na província de Goiás, buscava, com essa iniciativa, reafirmar a lealdade à monarquia e ao processo constitucional em curso, mesmo antes da conclusão da nova constituição.
Eleições na Capitania de Goiás
Em 7 de agosto de 1821, foram realizadas eleições na Capitania de Goiás para escolher os deputados que representariam a região nas Cortes Constituintes em Lisboa. Foram eleitos:
- Deputado efetivo: Joaquim Teotônio Segurado, Ouvidor da Comarca do Norte.
- Deputado efetivo: Luiz Antônio da Silva e Souza, Governador da Prelazia.
- Deputado suplente: Plácido Moreira de Carvalho, residente no Pará.
Em Portugal, no dia 4 de julho de 1822, D. João VI jurou as “bases da constituição que as cortes reunidas em Lisboa houvessem de fazer”. Talvez temendo o pior, o rei comprometeu-se com uma constituição ainda em elaboração, demonstrando boa vontade para manter a coroa.
O retorno de D. João VI a Portugal, em 1821, deixou as autoridades brasileiras em estado de incerteza. Esse cenário impulsionou os líderes dos movimentos de independência, que ganharam confiança e ousadia, como os acontecimentos posteriores demonstraram.
À frente do movimento libertário em Goiás, destacou-se o padre Luiz Bartolomeu Marques, que havia sido secretário do governo de Fernando Delgado. Ele foi apoiado na disseminação das ideias liberais pelo capitão Felipe Antônio Cardoso, pelos padres José Cardoso de Mendonça e Lucas Freire de Andrade, além do soldado Felizardo Nazaré.
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Cabeças do movimento libertário em Goiás
Algumas fervorosas proclamações patrióticas em defesa da independência foram atribuídas aos padres Luiz Bartolomeu Marques e Lucas Freire. O primeiro foi convocado pelo Capitão-General Manuel Inácio de Sampaio e severamente advertido, mas essa repreensão não surtiu o efeito desejado pelo governo. A reação foi a pior possível para o governo.
Com a chegada de notícias da corte, transmitidas pelo tenente-coronel Antônio Navarro de Abreu, que passava por Vila Boa a caminho de Mato Grosso, o padre Luiz Bartolomeu Marques intensificou suas ações em favor da instalação de um governo provisório no norte, visando avançar a causa da independência. Paralelamente, o capitão Felipe Antônio Cardoso buscava apoio entre as tropas, contando com a participação do capitão Francisco Xavier de Barros e do soldado Felizardo Nazaré Bittencourt.
O Movimento é abortado
O levante estava marcado para o dia 14 de agosto de 1821, mas uma denúncia fez abortar a conspiração. O soldado Felizardo Nazaré foi preso imediatamente e, posteriormente, também o capitão Felipe Antônio Cardoso, por recomendação do ouvidor Paulo de Almeida Couceiro.
Zoroastro Artiaga, em “História de Goiás”, primeiro tomo, página 99, narra o ocorrido:
“Instalaram um tribunal de emergência. A grande comissão de sindicância, à proporção que ia sentenciando os presos, remetia-os para Santos, escoltados, algemados e com correntes ao pescoço. O governador fez subir o Largo do Chafariz, com um sol abrasador, o primeiro préstito de presos, em singular procissão, debaixo do toque de latas velhas, tambores e fanfarras, tendo à frente do préstito Felipe Cardoso, o Padre Mendonça, Xavier de Barros e outros. O Padre Bartolomeu, avisado a tempo, fugiu para o Norte. Os deportados conservavam atitude serena: bravura, dignidade, altivez. O comparecimento para esta cerimônia era obrigatório, sob penas da lei; e este préstito, por isso mesmo, teve grande acompanhamento”.
Destino dos revolucionários
Com o fracasso do movimento, seus líderes foram banidos da capital. O capitão Francisco Xavier de Barros foi enviado para servir no Presídio de Santa Maria, às margens do Tocantins; o padre José Cardoso de Mendonça, para a Aldeia de Duro; o capitão Felipe Antônio Cardoso, para suas fazendas em Arraias; o padre Luiz Bartolomeu Marques, forçado a permanecer pelo menos cinquenta léguas afastado de Vila Boa; e o padre Lucas Freire de Andrade, afastado para fora da capitania.
Um movimento alternativo em caso de fracasso
O plano dos revolucionários incluía a possibilidade de estabelecer um governo provisório no norte caso a iniciativa não prosperasse na capital. O banimento dos líderes para o interior gerou grande repulsa, especialmente no caso do capitão Felipe Antônio Cardoso, e resultou na disseminação de suas ideias nos locais para onde foram enviados.
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O movimento continua
Os revolucionários inicialmente contavam com o apoio do vigário de Cavalcante, Francisco Joaquim Coelho de Matos. No entanto, devido à sua limitada liderança, ele transferiu a chefia do movimento ao desembargador Joaquim Teotônio Segurado, que aceitou prontamente, não para favorecer os patriotas, mas com a intenção de neutralizar qualquer tentativa em favor da independência. Nessas circunstâncias, em 14 de setembro de 1821, foi instalado um governo provisório em Cavalcante, composto por:
- Presidente: Joaquim Teotônio Segurado
- Secretário: Vigário Francisco Joaquim Coelho de Matos
- Membros: José Zeferino de Azevedo, Salvador de Almeida Campos, Joaquim Rodrigues Pereira, José Vitor de Faria Pereira e Francisco Xavier de Melo